Por Leda Alves
A amamentação é reconhecida mundialmente como a forma ideal de alimentação nos primeiros anos de vida, oferecendo benefícios nutricionais, imunológicos e emocionais para a criança, além de importantes vantagens para a saúde da mãe. Apesar disso, muitas mulheres enfrentam desafios que podem levar ao desmame precoce, especialmente quando seus filhos apresentam diagnóstico ou suspeita de alergia alimentar.
Com o objetivo de compreender melhor essa realidade, a estudante de Nutrição, Laurise Arruda, da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP), está desenvolvendo a pesquisa "Interrupção do Aleitamento Materno após o Diagnóstico ou Suspeita de Alergia Alimentar em Lactentes: um estudo transversal", sob orientação da professora Dra. Flávia De Conti Cartolano.
Dados do Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil (ENANI-2019) mostram que apenas 45,8% das crianças brasileiras menores de seis meses recebem aleitamento materno exclusivo, percentual abaixo da recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS).
Embora diversos fatores estejam associados à interrupção precoce da amamentação, ainda são escassos os estudos brasileiros que investigam especificamente a influência das alergias alimentares nesse processo.
Quando uma criança apresenta suspeita ou diagnóstico de alergia alimentar, é comum que a mãe receba orientação para excluir determinados alimentos de sua própria alimentação, especialmente durante o período de aleitamento. Essas restrições podem impactar significativamente a rotina familiar, a vida social, a saúde mental e a qualidade de vida da mulher, além de tornar a experiência da amamentação mais desafiadora.
Segundo a pesquisadora, compreender como essas dificuldades afetam a continuidade do aleitamento materno é fundamental para aprimorar o suporte oferecido às famílias.

O estudo surgiu a partir da experiência pessoal de Laurise Arruda como mãe.
Sua filha apresentou sinais sugestivos de alergia alimentar ainda durante a amamentação, incluindo refluxo intenso e episódios frequentes de regurgitação. Mais tarde, durante a introdução alimentar, surgiram reações a diversos alimentos, como ovo, banana, kiwi, mamão e abacate.
Para continuar amamentando, Laurise precisou realizar uma rigorosa dieta de exclusão, retirando temporariamente esses alimentos da própria alimentação. A experiência trouxe desafios físicos, emocionais e sociais que despertaram uma importante reflexão.
“Como mãe, vivi os impactos que uma alergia alimentar pode provocar na vida de uma mulher que amamenta. Como estudante de Nutrição, comecei a me perguntar se outras mães passavam pelas mesmas dificuldades e se essas experiências poderiam contribuir para a interrupção precoce da amamentação”, relata.
A partir desse questionamento nasceu a proposta da pesquisa, que busca gerar evidências científicas capazes de ampliar o conhecimento sobre o tema e fortalecer as estratégias de apoio às famílias.
A hipótese central do estudo é que mães de crianças com diagnóstico ou suspeita de alergia alimentar apresentam maior probabilidade de interromper o aleitamento materno exclusivo antes dos seis meses de vida, período recomendado pela OMS.
Além de avaliar essa possível associação, a pesquisa também pretende:
Investigar a frequência da interrupção do aleitamento materno exclusivo antes dos seis meses;
Avaliar a interrupção da amamentação antes dos dois anos de idade;
Identificar o tempo de manutenção do aleitamento materno;
Analisar fatores relacionados ao desmame, como dificuldades com a dieta de exclusão, orientação profissional e apoio familiar;
Avaliar a qualidade de vida das mães de crianças com alergia alimentar.
A coleta de dados está sendo realizada por meio de um questionário eletrônico, permitindo a participação de mães de diferentes regiões do país.
O formulário aborda informações sociodemográficas, histórico de alergia alimentar da criança, práticas de amamentação, experiências relacionadas à dieta de exclusão e qualidade de vida materna.
Para avaliar o impacto da alergia alimentar na vida das famílias, será utilizado o Food Allergy Quality of Life Questionnaire – Parental Burden (FAQL-PB), instrumento validado para a população brasileira.
O preenchimento leva aproximadamente entre 15 e 20 minutos.
Podem participar mulheres com 18 anos ou mais, mães de crianças de até três anos de idade com diagnóstico ou suspeita de alergia alimentar, que tenham amamentado seus filhos em algum momento.
Embora a participação não gere benefícios diretos às voluntárias, os resultados poderão contribuir para ampliar o conhecimento científico sobre os desafios enfrentados por mães de crianças com alergia alimentar.
As informações obtidas poderão subsidiar estratégias de promoção do aleitamento materno, qualificar a assistência prestada pelos profissionais de saúde e apoiar a construção de políticas públicas voltadas às necessidades dessas famílias.
Considerando os inúmeros benefícios da amamentação para a saúde infantil e materna, compreender os fatores que dificultam sua manutenção é um passo importante para garantir que mais mulheres recebam o apoio necessário para seguir amamentando de forma segura e acolhida.

Mães interessadas podem responder ao questionário por meio do link:
https://bit.ly/pesquisa-fsp-usp
A participação é voluntária, confidencial e poderá ser interrompida a qualquer momento, sem qualquer prejuízo à participante.